11.6.07

Até onde o Destino não previu

"Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde"

24.4.07

Um bolso virado para fora, que diz ele?
E porquê há sempre alguém que tentando ajudar sugere que o guardemos?
Talvez por saber que, como o bolso, expor o de dentro cause sempre certa estranheza e inadequação.
Ou porque os bolsos são originalmente talhados para ocultar e não para expor. E a subversão é quase sempre incômoda e pouco simétrica.
E quando as coisas não guardam simetria estabelece-se a angústia...
É como amar alguém e para preservar esse amor precisar estar apartado, por fidelidade ao que se sente.
A fim de que a mentira do cotidiano não mascare e ofusque o sentimento - o torne impuro.
Talvez por isso tantas bolsas, tantos zíperes, bolsos - pequenos compartimentos de nós mesmos.
Afinal, há muito o que esconder, temos muito medo e mundos...
E também esses escondemos de nós.

22.4.07

Mi Negra

"MI ALMA es un carrousel vacío en el crepúsculo..." Pablo Neruda - Crepusculário.

Negra à janela, sou sombra indistinta na noite.
Lua, núvem, pássaro, paisagem.
Alheia e fria...
Minhas lágrimas - duas luas minguantes -
Obscura emoção, falso brilhante.

Pousada sob o luar, balouço lisa, escondida.
Cá toco céu e mistério,
Não tenho começo nem fim -
Sou ponto, reta, fresta, olhar.

4.4.07

De mim pra mim

"(...) fumo por escolhas a muito realizadas, decisões tomadas despreocupadamente. Entretanto me agrada particularmente a natureza da fumaça, o centramento que fumar me traz - o desanuviar das idéias. Eis o que mais me agrada. A solidão enfim cogitável, a textura de certas penumbras, a sinuosidade das luzes, a dança dos eflúvios... Os cigarros são minhas prostitutas queridas, eu pago por eles mas os tenho em zêlo, afeição e sincero interesse".
Eu, morada de minha alma, tenho em minha voz, falada, sua expressão mais audível. Audível e nem por isso a mais sonora. E muito menos a mais expressiva. A expressão mais reveladora de mim possivelmente são minhas mãos; com as quais dialogo com as tecituras, interajo com os corpos, me exprimo... Através delas falo, busco a gentileza de um olhar atencioso e sinalizo a farça que envolve as palavras. Meus pés se deliciam ao menor afago e encontram-se tremendamente plantados ao chão. E minha alma flutua lilás e vermelha, depositando a paixão excessiva, a inquietude e a sensualidade de minhas cadências. O corpo inteiro é delgado e tenro como uma fruta madura, sempre à espera de ser acolhido ou degustado. Com ele emito ondas perfumadas, nuvens de calor, roçados macios... Assim clamo quase sem querer e me escapam os brotos entre ronronados e uivos.

13.12.06

INTERMITÊNCIAS

“(...)Há certos muros que não devem ser vistos antes de envelhecermos: musgo e ocre, dálias sobre alguns, dilaceradas, sons que não devem ser ouvidos, pulmões da mentira, os metálicos sons da crueldade ecoando fundo até o coração, palavras que não devem ser pronunciadas, as eloqüentes-ocas, as vibrantes de infâmia, as rubras de sabedoria, latejantes. Sustos. Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre a mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isto é aquilo que vê. Toco os dois olhos em cima da mesa. Lisos, tépidos ainda (arrancaram há pouco), gelatinosos. Mas não vejo o ver. Assim é o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito. E desbocado e cruel, manchado de tintas, essas pardas-escuras do não saber dizer, tento amputado conhecer o passo, cego conhecer a luz, ausente de braços tento te abraçar, Conhecimento. Bêbado vou indo(...)".

Com meus olhos de cão - Hilda Hilst.

PEDRA FINA

Debes medirte, Caballero,
Compañero debes medirte,
Me aconsejaron uno a uno,
Me aconsejaran poco a poco,
Me aconsejaron mucho a mucho,
Hasta que me fui desmediendo
Y cada vez me desmedí,
Me desmedí cada día
Hasta llegar a ser sin duda
Horripilante y desmedido,
Desmedido a pesar de todo,
Inaceptable y desmedido
Desmedidamente dichoso
En mi insurgente desmesura.
(...)”
El corazón amarillo – Pablo Neruda.

3.12.06

DESSEMELHANTE

Você me ama mais ou menos quando não concorda comigo? Melhor...? Seu amar é também ódio? Assim - amor-ódio... Que crimes cometo - eu - contra você? Em nossas dessemelhanças... Ah! Sua decadência-afeição, a pretender-me menor...
Eu, pássaro-ferido em pleno vôo...

24.11.06

LAMENTO-BALBUCIO

Hoje tomei café contigo e me comovi. Não podemos estar distantes. Ouço uma canção cálida e passional, leve e triste - miríades delas... E cá está você de novo em mim. O sol brilha sorridente e tolo feito criança, desconjuntado de si - lindo. E o seu sorriso inrrompe pelo meu peito. Sublime... A brisa em seu silêncio traz saudades de sua tristeza profunda. Olhar perdido no horizonte de si - torvelinho humano. Vagueio no mundo e me falta... Preciso olhar em seus olhos quando a vida desliza intranqüila, saber-lhe - amorosamente acompanhada. Amo você dia após dia. E bem sei o mal que que algo assim encerra. Então, deixo-me estar - aguardo... Suspeito suas presenças. Sempre compondo a minha vida. Fumei um cigarro em sua homenagem, você que povôa minhas memórias, meus sonhos, meu cotidiano. Conversei com você sem saber o por quê. E me transfigurei... Estava triste e estranhamente repleta - como pode? Saudades eternas... Será sempre meu sentimento. Afinal, sempre estarei às voltas (quiça dançante) contigo. Você que plenifica minha vida - alarga meu ser. Não demore não... de voltar. O café está sempre quente, o cinzeiro à postos, os braços abertos, as mãos estendidas, portas e janelas entre-abertas... Espero que seja você que vem vindo... O sorriso largo que ouço ao longe, os passos ligeiros...

12.11.06

O Absurdo do teatro

"Os papéis exercem as pessoas, são mais poderosos quando nelas investidos".

Por quanto tempo mais?
Eterna espera.
Pouse sua mão sobre a minha.
Assim sem querer pertencer - proteger...
Sem pretensões.

- O amor ideal é aquele que não se sente...
- Sei... E a mentira não dita também não forja o caráter?
- Ah... tenha certeza que estou sendo sincera quando lhe minto...
...
Garrafas vazias como mãos que procuram tecituras queridas - Ternuras jamais esquecidas. O crepitar de seu cigarro, fragmentos de um crepúsculo particular. Memórias, silêncios, fulgores. Solidão familiar - terna. E a tua mão agora pela chama e fumaça pacificada. Olhar perdido - submerso - no infinito negro do mundo. Frêmito e beleza e luz e silêncio. Assim seguimos - mariposeantes. Hipinotizadas a arder até a morte do amor pelo negro dentro da luz - dentro de nós...

"nós"

De tanto barter, meu coração...
De tanto - Bater...
Gestos, ocultos?

" - Sabe?
- Todos deveriam ter o coração do lado de fora do peito, exposto.
- Por quê?
- Bem, assim ficaria fácil saber quem está realmente vivo ou apenas funcionando."

Jazigo.
Lugar que nos aguarda.
Espera úmida - uterina.
Ah! minhas asas de borboleta
A se debater por dentro - porção perturbadora de mim.
"Eu" - cebola absoluta!
Camadas infinitas de emoção e ilusões.
Prisma por onde a não-luz dos outros se manifesta.
Oposta-sombra.
Compor que é sem ninguém.
Eco-ato, alto-falante.

"- Será assim amiga?"

Fragmentos são pensamentos materializados...

" - Então posso concluir que te criei".
E na gestação do mundo me recriei, enfim.

26.10.06

De onde você parou...

E os muros,
Umbrais absolutos de meu ser,
Cresceram sobre mim como têias...

Cubriram todo a luz que havia em mim,
Fecharam fresta à fresta sem querer.

E eu que entre muralhas me perdi,
Tecendo sonhos a me libertar,
Não percebi que quase sem querer
Perdia-me tremendo a me encontrar.

E como fosse um pássaro a voar
Desci, como quem plana rumo ao sol,
Sumi na imensidão de em mim o ar...

Na seta de meu alvo a despencar,
Cai cegaga pela luz que em mim
Tragou-me em mim a treva a me fechar,
Cobriu-ma a espera esfera de se dar.

E laço insuspeitável a me oprimir,
trancou-me e em mim gaiola - onde estás?
És? Onde estou?

- "Sim, sim. Todo homem é uma ilha...
Insuspetável e balouçante entre tantas outras ilhas.
Mas, quem saberia?
...
Um átomo, um muro, matéria negra.
É. Tens razão... Pessoas são ihas que choram."

Alguém? Tem alguém aí? Pode me ouvir?
... ... ...
... ...
...
.

28.9.06



A cura e a tortura...
De que imagem trata o brinquedo?
Com que brincadeira cura-se a crueza da realizade?
Va savoir...
Quem o sabe?
Curar-matar, morrer-viver, sarar-sangrar, limpar, conter...
Os descaminhos do ser - ruma à luz?
Quiçá - Heyokah - quiçá!

"Quando giro fico tonto...
Fico tonto e danço zonzo.
E se tento parar - a náusea.
Desacelerar? talvez...
Só sei que quanto mais rodopio,
quanto menos vejo, quanto mais me entrego...
Breve, breve, vem o tão sonhado tombo."

(Sobre giros e tombos - CRIANÇA. Qualquer, Fora de catálogo)

20.9.06

Ausente... Ímpar... Negro...

-Tem uma brexa, tem uma brecha... Gritou de espanto, mas como toca-la sem vê-la, se a força do vento que por lá escapa, me arrepia os cabelos?
Não cantou...
Muro absoluto, antigo – porta-de-destino.
Eu prisioneiro utilitário, a cavar cada vez mais fundo, a trazer a superfície água tão límpida...
Tem uma brecha?

Aonde irá a terra em minhas unhas, até quando meu Deus? – Até quando?
Por que sei, se a escuridão úmida e só do que me aflige não pode por si mesma libertar?
Onde irei, se dizem que a Terra é redonda, se as margens nunca chegam a aportar, se as linhas nunca tocam minhas mãos, se há âncoras sem fim a me tragar?
As frestas a balbuciar-me sonhos, a mente a proliferar insanos, as mãos inquietas nos desvãos, o cenho a ferir-me e a sangrar...
“Levanto meus olhos, aos montes, de onde me virá o socorro?”
“Socorram-me subi no ônibus em Marrocos!”
Falando absurdos, sigo sozinho o meu descaminho.
Questões que me atormentam e constroem,
Silêncios que ressoam como dardos, atravessam como flechas com seu susto o coração...
Que teço enquanto calo, que tenho do que cavo? Se minhas águas saciam sedes estranhas e me brotam as águas das entranhas – dá aridez de mim a desgastar...
Tenho medo... Tenho farpas... Tenho sonhos... Sinto sede...
“Como pode o peixe vivo viver fora d’água fria?
Como poderei viver?
Como poderei viver?”
Tem uma brexa, meu Deus, caio ou saio?
Onde me leva o incessante cavar, cada vez mais fundo, cada vez mais árido?
Tenho frestas, onde não consigo ver,
Mas como me partem... Evasão de mim.
Para além que não posso desfrutar...
“Onde estás que não respondes?”
Onde respondes que não estás?...
A chuva escorre pelos vidros ou a vida escoa pelas brechas?
Em que lugar não há arestas?

“Silêncio.
Não há banda, não há orquestra – tudo é uma gravação...”

13.9.06

"Depois volto e preparo um café pra lhe saborear"

Vinho branco - seco ao primeiro gole, transparente e lúcido.
Translúcido-ser...

Poço absoluto - cais...
Fonte de águas tão límpidas,
Trazidas das trevas, do fundo silêncio de si.

Com que veemência derramas-me
O mais sombrio mistério de tua liquidez.

O poço dos olhos d'água, totalmente insuspeitável...
O escuro arredio e sensível - imerso no azul ininito.
- Sabes? O fundo do mar é negro...
O frio e silente é sua natureza mais pofunda.

Trazes nos olhos a mística óbvia da amplidão que tanto amas.
E eu a amar quieta a imensião do que desconheço.

Vinho branco?
Translúcido-ser...
Bebo o negro de ti a vagar.
Em que gole encontras no negro do outro a presença que procuras?

Circunlóquios

"O caminho que conduz para fora do labirinto do mundo fenomenal, que conduz à eternidade... Encontrar esse caminho e partilhá-lo significa alcançar o Tao. O caminho para a obtenção do Tao é duplo: um conduz à existência, outro conduz à não-existência. Quando são orientados para encontrar o Tao na existência, os fenômenos devem ser observados de tal maneira que não se fique enredado neles. As formas exteriores do Tao, sendo este a origem de tudo quanto aparece, são: o alto e o baixo, o belo e o feio, o bom e o mau. No entanto, procura-se me vão o Tao na realizade dos fenômenos, quando se term objetivos e intenções. Quanto mais se explorar o mundo com objetivos e intenções determinadas, quanto mais se cultivar a ambição, quanto mais se quiser ou se fizer algo, tanto mais se ficará enredado no isolamento. Nesse caso, não faz nenhuma diferença para onde a nossa aspiração se volte; se buscamos prazer, cores, sons, guloseimas, jogos excitantes, bens raros, o efeito de tudo isso é apenas um enredamento mais profundo na ilusão. Trata-se igualmente de ilusão, quando o objetivo for cultivar a santidade e a sabedoria, o amor e a responsabilidade, a arte e o lucro, a erudição e o conhecimento, poi isso tambémprovocará a excessiva acentuação de um dos pólos, o que forçosamente provocará a acentuação do outro.
O Tao é como a tensão do arco. Complementa cada unilatyeralidade pelo seu oposto. O alto é rebixado, o baixo é elevado. O sentido do céu é reduzir o superabundante e complementar o carente. Por isso, o caminho que conduz ao Tao pelo ser passa pela aceitação dos opostos no mundo dos fenômenos. Quanto mais livre nos tornamos das ambições ilusórias, tanto mais nos libertaremos do próprio ego. A seguir, não olhamos mais para o mundo sob o açoite do medo, ou cheios de esperança, mas puramente como se ele fosse um objeto. Verificamos que todas as coisas surgem e crescem eque retornam sempre à raiz. Vêem-se giganescas energias desencadeando-se feito aguaceiros e ciclones, mas nenhum ciclone dura toda a manhã; logo passa. Reconhecemos como as armas são fortes, mas não são vitoriosas; vemos como a árvore é rija, mas é abatida. É do sofrimento que depende a felicidade. O sofrimento está à espreita da felicidade. Através desses conhecimentos, conseguimos eliminar o eu, porque é este pequeno eu que considera o diminuto espaço entre o nascimento e a morte como sua vida, é esse eu que é a verdadeira causa de toda ilusão. Ao desejar algo para esse espaço de tempo e tratando de realizar o desejado pela magia do nome - pelo qual primeiro vem o conhecimento do desejado, que, por seu turno, causa o desejo - , surgem todas as teias que ocultam o Tao ao consciente. Assim, a própria graça é inquietante e a honra um grande sofrimento, simplesmente por causa da personalidade, que tudo relaciona consigo mesma. Esse eu-personalidade precisa estar constantemente inquieto, tanto quanto lhe acontece receber uma graça ou quando lhe acontece perdê-la, suscedendo o mesmo com a honra. Eliminada a personalidade, não existe mais nenhum mal. Pois o Tao age com segurança soberana, mesmo quando os desejos obscurecem o eu; até mesmo esses desejos são feitos do Tao, segundo leis fixas. Nada poderia ser diferente do que é. Trata-se apenas de não obstruirmos o caminho. Desse modo, a imagem do mundo fica isenta de ilusão e é puro, e assistimos ao jogo da vida com a quietude interior. Sabemos que viver e morrer é o mesmo que entrar e sair. Se seguirmos a lei eterna sem nos apegarmos a nada, sem nos deixarmos endurecer e cristalizar em ponto algum, permanecemos no fluxo do Tao e as forças da morte - que só podem atacar, quando no indivíduo se slidificou - não terão mais poder sobre nós. Assim o caminho exterior, através da existência, é um caminho para o Tao, que se desdobra na existência quando estamos livres da ilusão e somos capazes de assistir, em pura contemplaça~o, a obra-prima da mãe eterna, que tece os fios e os deixa fluir como os jorros de cascatas, ininterrupta e incessantemente. Porém, sabemos que esse véu é vivo, está em constante movimento, não conhecendo demora, nem desejo, nem ego, nem duração. Tudo flui.
O outro leva pelo não-ser. Através dele chegamos À contemplaçã das forças ocultas, à união com a mãe. O que antes era apenas um espetáculo, agora é vivência. Chegamos à unidade sem par, à porta escura de onde brotam o céu e a terra, todos os seres e todas as forças. Esse é o caminho da solidão e do silêncio. Nele surgem lampejos de conhecimentos de que não podemos falar aos outros e que devemos venrar em silêncio. Esse caminho do silêncio nos distancia muit de tudo o que é pessoal, porque o que é pessoal representa apenas o invólucro perecível com o qual nos movemos, à medida que andamos pela vida. Esse caminho exige, no entanto, uma preparação. É preciso trabalhar a alma de tal modo que ela seja capaz de manter a unidade sem se dispersar, porque o critério é este: quando um sábio da mais elevada categoria ouve a partir do Tao, permanece com ele; quando isso se dá com um sábio menos elevado, ele vacila: ora tem o Tao ora o perde. Mas, se se quiser alcançar a entrada do santuário mais íntimo, será preciso ultrapassar essa vacilação. A primeira coisa é a unidade completa. Depois vem a flexibilidade das forças psíquicas. Nenhuma tensão deve permanecer assim como ela existe em estados forçados de unidade, porque a vivência deve surgir de modo totalmente simples e suave. As forças interiores devem começar a fluir e a vencer os obstáculos. É necessário chegarmos à condição de uma criança, que pode fazer todos os esforços sem se cansar, porque é relaxada e descontraída, não-endurecida. Essa liquefação interior não é, no entanto, uma distração, mas um nível que tem como condição prévia a continuidade de concentração. A normalização é que não pode mais fracassar, porque se tornou constante. Só popsteriormente é possível a instrospecção, porque nesse momento o espelho da alma é limpo e tão dócil que não quer mais fixar nenhuma impressão, mas segue sem resistência os estímulos que assomam das profundezas. Temos agora a vivência de como se abrem e se fecham as portas do céu. Contemplamos o invisível, tocamos o impalpável. Estamos além da existência, estamos nas profundezas, junto às origens. Somos testemunha dos processos ocultos da vida e nos mantemos serenos e dóceis como a ave fêmea com o ovo, que ecerra o segredo das vida. E o ovo se abre. Dá-se a união com o Tao final. O filho encontrou a mãe...
Agora surge a grande certeza que penetra tudo, o reconhecimento salvador da unidade sem par. Mas desse reconhecimento resulta a possibilidade de não querermos mais consolidar e separar os opostos em sua aparência, mas aceitá-los e reuni-los numa síntese mais elevada. Reconhecemos dentro de nós mesmos o masculino criador, mas também o feminino receptivo; reconhecemos a honra que temos e também permanecemos voluntariamente na vergonha. Por isso, livramo-nos de todas as misérias pessoais e voltamos à simplicidade original. Quem reconhece desse modo a sua condição filial e conserva a sua mãe (a grande mãe do mundo, o Tao),não corre perigo em toda a vida. Completa o pequeno, conserva a flexibilidade e, por isso, mantém-se livre de todo o sofrimento. Quem sabe preservar desse modo a sua vida, também não teme o rinoceronte nem o tigre e é capaz de passar no meio de um exército, sem armadura nem armas. Pois não tem nnhum ponto mortal qe possa ser ferido, já que nele nada há que oponha resistência.
A partir desse conhecimento,ele também ordenará a sua ação. Sempre irá efetivar o que ainda não é e ordenar o que ainda não entrou em confusão, porque justamente aqui já estão as sementes que existem no invisível (...). É preciso trabalhar sobre essas sementes, a fim de que o que nelas fora depositado possa se desenvolver com o crescimento, sem que ele próprio se esforce ou sem que haja interferência exterior. Essa influência orgânica das sementes é o modo decisivo de trabalhar de quem alcançou o Tao. O que for plantado desse modo não será arrancado. O bom caminhante não deixa rastros. O bom guardião não usa fechadura nem tranca. A verdade é que quem tenciona trabalhar sobre as sementes revela sua força secreta no fato de deixar que as forças opostas se efetuem a princípio calmamente. Primeiro devemos deixar que se expanda completamente o que pretendemos comprimir. Só quando uma das forças se aproxima pela atuação do esgotamento, proporciona oportunidade de ser superada facilmente.
É justamente essa a diferença entre o caminho do Tao e o caminho do conhecimento. O caminho do conhecimento leva cada vez mais longe no mundo; busca, explora, armazena cada veis mais fatos. No, entanto, para atingir o Tao é necessário ir cada vez mais para o interiro, até alcançar o ponto de unidade, onde a personalidade individualizada entra em ontato com a totalizade cósmica. a partir desse ponto, abre-se a possibilidade da contemp´lação cósmica. Sem sair pela porta pode-se conhecer o mundo. Sem olhar pela janela, pode-se contemplar o sentido do céu. O que está nesse ponto não caminha e, não obstante, chega ao fim; não olha para nada e, no entanto, tem certeza sobre tudo, não age e, conudo, leva tudo à realização.
Desse modo, o que tem o Tao levaráa sua vida como uma pessoa, mas o que é pessoal, a máscara do eu, não o enganará mais. Ele vai representar seu papel, como os outros, mas se manterá distante da agitação deles, porque se libertou da ilusão e aprecia nutrir-se unicamente da mãe.''
Que comece a ordenha da vaca-noite....

11.9.06

Across the universe

A beleza das bolhas-de-sabão está nas multicores images
que quase nunca vemos.

Furta-cores,
tece-sonhos,
dança-luzes...

É a pausa epifânica que disperta os sonhos -
cristalina imaterialidade...

Amo bolhas,
teço lábrimas,
conto passos que perderam os pés pelo caminho.

Onde ficas, quando me partes, insuspeitável ponte?
Aonde pensas que me levas, se me deixas?

Quando me sonhas,
que fazes com a materialidade de mim - imanifesta?

Sinto cheiros,
persigo bolas-de-sabão.
Traço pontos insuspeitáveis nas emoções,
Danço nua...

Te leio com meus lábios semi-cerrados, aspirado olores.
Perscrutando fontes distantes a jorrar -
acordando a sede...

Qu'é que eu sei?

23.8.06

Laiá, laiá... laiá, laiá...

De Mim labirinto à Ti espelho de muitas águas...

" Uma palavra e eu me afasto.
Uma contenção e eu deslizo.
Não posso evitar o desperdício do que jorra sobre mim.
Um olhar e eu adormeço.
Eu não desminto, mas não fico. Eu não posso...
Um deslize e eu reconstruo. Um desafio e eu retardo.
Eu esgoto minhas versões e recolho os artifícios.
Vou nadar entre os vestígios...
Um contorno e eu embaço.
E me espalho. E me perco. E me falto.
Um trinco e eu me rompo. E afundo afundo afundo.
E me solto, e despenco em abismos de distração.
Uma espera e eu não chego..."

Sonhei contigo e acordei chorada...
Dormida - descobri-nos acordadas.
Revisitei local sinistro, de Cassandricas professias...
E só então percebi que estavas lá, igualmente presa a perder-se sonhada sozinha. Nos reconhecemos com a mesma alegria peculiar. Entre cacos e cascos - famílias e carcereiros... Então fugimos, corremos, descemos pelas insuspeitáveis frestas do lugar. Frestas insondadas e estranhamente conhecidas, possibilidades de aguardo... Ousamos e nos pusemos livres, como jamais tentamos sozinhas. Afundamos a escorrer pelas escadas cujo poço parecia não ter fim - profunda escuridão. Tive medo e ti segui... Um medo de não saber de ti e de mim sem ti, então fui-ti... Chegamos ao fundo e ao olharmos para cima nada vimos - não nos seria dado retornar... Procuramos frestas com a ponta dos dedos, cumplicidade de nós que sentimos o espaço com as mãos. Senti algo e ao girá-lo jorrou sobre nós uma cachoeira de água fria e límpida - sorrimos... Víamos apenas o que tocávamos e os olhos uma da outra. Num consentimento tácito giramos na mesma direção e o que parecia uma parede de pedra intransponível fez-se porta e permitiu-se. Abrimos... E como era larga a vida lá fora, parecia uma chácara numa cidade do interior. Árvores, pássaros e uma linda tarde de sol... Você me olhou daquele seu jeito cheio de luz e chorou feliz como tudo que é belo e sem sabê-lo caminha para a morte... Sorri em retribuição e te abracei beijando-te o alto da cabeça. E foi um abraço longo, apertado, largo e cúmplice... Enfim estávamos juntas onde sempre quisemos estar e você chorava por custar a creditar... e calou balbuciado bolhas. Pingamos...

16.8.06

Girândola...

"Eis a carta dos céus:
as distâncias vivas
indicam apenas
roteiros
os astros não se interligam
e a distância maior
é olhar apenas.

A estrela
vôo e luz somente
sempre nasce agora:
desconhece as irmãs
e é sem espelho.

Eis a carta dos céus: tudo
indeterminado e imprevisto
cria um amor fluente
e sempre vivo.

Eis a carta dos céus: tudo
se move."

("Mapa", Orides Fontela) From Qualquer calmaria