Caminhando em beleza
- ABACO
- ABASI
- ADBUSTERS
- ANDA
- Aniamal Rights History
- Animal Rights Library
- AVAAZ
- BioWit
- Calendário da Paz
- Chapada Diamantina
- Cidade Princesa
- Doe Palavras
- Ecologistas en acción
- Estante Virtual
- Feira Hoje
- Fraternidade Internacional
- Freegan
- Guia Vegano
- Holocausto Animal Brasil
- Iconoclasistas
- INCISA
- Instituto Abolicinista Animal
- Instituto de Permacultura Bahia
- Instituto de Permacultura em Terras Secas
- Instituto Nina Rosa
- IRDIN
- Les Cahiers antispécistes
- Livraria Tapioca
- Loja Verde
- Marizá
- Ministério do Meio Ambiente
- Natural Shop
- Ordem Graça Misericórdia
- Outro Mundo
- Pensata Animal
- PETA
- Planeta Sustentável
- Prefeitura FSA
- Proteção aos Grandes Primatas
- Quiroga
- Sea Shepherd
- Sin Dinero
- SKFA
- SVB
- Sítio Vegetariano
- Tom Regan
- Uni-Yôga
- Verde e Arte
- VIDA ORANTE
- WWF Brasil
5.12.09
Como me sinto
Após um longo armistício rapozeando paz a angústia voltou e com ela uma certa tristeza sem nome e velha conhecida. Talvez seja a minha crise dos quarenta chegando um pouquinho cedo – sempre foi dada precocidades. Preciso escrever antes que enlouqueça – porque venho sentindo uma falta absurda de mim. Creio que o estopim foi ter (distraidamente) tocado o violão após um longo silêncio e porque voltei (não sei a razão) a cantar – é assim com todos os pássaros basta cantar pra ficar triste, mas como conter-se? Estou no inferno astral porque meu aniversário é dia 07 e 17 de dezembro (tenho dois aniversários) – não, não (melhor dizendo) um é auspicioso e oficioso (17/12) e o oficial é infernal. Entretanto não vou temer, vou me entregar, admitir e acolher essa crise – tão minha, velha cúmplice de crimes imorais. Sinto-me sempre assim alguém partida ao meio – desde sempre – caminhante na corda-bamba, no frio da navalha. Responder já não posso minhas eternas indagações de cárcere, meu lamento de alcova, minha solidão de multidões – quem o poderia? Se por vezes me sinto uma farsante em seu pior ato de auto-comiseração – tragi-comédia de bêbados... Fui desterrada, devassada, violentada em meu âmago e agora essa lágrima seca – essa ternura muda. Gostaria de puder vociferar, cerrar as unhas em carne quente, bufar, destruir tudo - mas como? Se sinto que esse pandemônio também é fruto de meu ventre, da contradição absoluta de minhas entranhas – e nessas reside uma chama feroz que me consume, uma dama louca que me aconselha enquanto durmo. E durmo sempre, sobretudo, em vigília. Sonho ilhas, amores, tecituras, um rubro de abajur envolto em seda, dedilhar de mãos – sedosidade e delícias... Me sinto essa dor infinita e sem nome que me pergunta sempre: - Como te chamas? E eu sempre respondo: - Não me chamo nunca, muito embora os outros insistam em fazê-lo. Tenho medo, por favor, meu miolo é quente, pulsa e sangra à menor aproximação... Assim não... tento em vão explicar sem dizê-lo – e como não poderia ser diferente –, entretanto, entre mim e te só incompreensão... Que é que eu sei? Se só nos aproximamos no atrito me pergunto: – atrito, choque mesmo, já é amor? E o infinito silêncio me responde calado: - Tu o dizes, menina travessa, Tu o saberá, mulher, ser alado. E eu, dividida que sou nunca estou certa e a vacilar caminho trôpega...
15.6.09
Viagens estáticas - Pedra de sonho
Quão fundo estou disposta a ir em minha busca de quem sou?
Quão disposta estou a me entregar ao processo?
Onde o processo está?
O quê ou quem ou quais situações são já ou ainda o processo?
Estou disposta a abrir mão? A não sustentar nada?
A deixar acontecer e aprender a voar?
Quão disposta estou a me entregar ao processo?
Onde o processo está?
O quê ou quem ou quais situações são já ou ainda o processo?
Estou disposta a abrir mão? A não sustentar nada?
A deixar acontecer e aprender a voar?
15.5.09
Eu respeito o tempo dos seres porque tudo me é sagrado: as chegadas, as passagens, as grandes estadias e as curtas permanências. Pedra, ave, gente, chão - possuem sua ocasião e instante. Acolhe-los é acatar o que deles há de incompreensão cíclica em mim. De tantos ciclos, este se abre tão necessário quanto doloroso. Pairo rugosa como grão de areia que se desprende e ganha os ares em puro êxtase. Serei cisco a irritar olho alheio ou duna, praia, esquecimento de mim?
4.3.09
Oração
Que eu não perca a vontade de amar, mesmo sabendo que a pessoa que eu mais ame possa não sentir o mesmo por mim...
Que eu não perca a luz e o brilho no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo escurecerão meu olhos...
Que eu não perca a beleza e a alegria de viver, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...
Que eu não perca a vontade de doar este enorme amor que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido e até rejeitado...
A fim de que eu seja sempre sincera com o meu ser interno que atravessado pelo raio do amor-sabedoria ama por conta de, a despeito de e para além de...
IRINSHIRIN MAUAKSIKILK
Que eu não perca a luz e o brilho no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo escurecerão meu olhos...
Que eu não perca a beleza e a alegria de viver, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...
Que eu não perca a vontade de doar este enorme amor que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido e até rejeitado...
A fim de que eu seja sempre sincera com o meu ser interno que atravessado pelo raio do amor-sabedoria ama por conta de, a despeito de e para além de...
IRINSHIRIN MAUAKSIKILK
11.2.09
Bio - Grafia ou com o macio dos dedos nas entranhas rubras
Eu, desde pequena sempre tive uma certeza, a de que a dúvida muitas vezes é um benefício duro e bom de se ter a sua disposição; sobretudo quando não se tem certeza sobre os começos. De alguma forma isso sensibiliza e não foi diferente comigo. Cresci com duas primas, as quais já trilham caminhos para longe de meus passos...
Desde muito pequena sempre houve uma “estranha” simbiose entre mim e os outros animais, as plantas, as pedras, o vento e os seres que não possuem mais um corpo físico para transitar nesse mundo. Tive uma infância, afora esses pequenos detalhes, muito comum. Corria pelo mato, subia em árvores, contemplava o por-do-sol, imitava os pássaros, comia frutinhas desconhecidas, nada que qualquer criança que tenha oportunidade não faça.
Entretanto, meus afetos de criança me faziam uma criança excessivamente sensível aos demais, “bicho do mato”, solitária, afeita às palavras, afoita... Fiz amigos em todos os reinos, cães, palmeiras, pedras e em todos os planos. No astral fiz amigos, reencontrei outros em sonhos de vigília ou não.
Aos 5 anos minha mãe me contou que eu era adotiva e a forma como eu cheguei até ela. Também aos 5 anos tomava uma dose de whisky todos os dias, normalmente após o almoço, para acompanhar meu pai (inicialmente) e depois porque eu e o whisky tínhamos lá nossa profunda amizade. Aos seis vi a “primeira pessoa que não devia estar lá” de minha vida – um homem alto, de terno e sapatos escuros com seus negros cabelos e sua pele branca combinando com a blusa branca que usava. Foi também aos seis que tive meu primeiro sonho premonitório acerca de mim, e como sempre me acontece, não pude evitar o estava por vir...
Então, um amigo da família, que vivia em nossa casa, brincava comigo constantemente viu em mim a mulher que eu seria ao invés da criança – eu tinha lá minha malícia, sabe como é, muito madura para algumas coisas e, ainda assim, nada além de uma criança – e me agarrou e, enfim, deslizou seu corpo no meu comigo suspensa em seus braços, mas me soltou quando eu exigi que me coloca-se no chão e me largasse. Sem maiores conseqüências, acho, mas isso me fez um tanto cautelosa quanto a minha exposição pessoal e sensualidade.
Dos 11 aos 13, os primeiros mal estares causados pelo álcool. Aos 13 anos a escrita se me aflorou e comecei a escrever coisas lindas, desenvolvi o gosto pela palavra (o qual me acompanha até hoje), pela semântica, pela poesia, a subjetividade dos seres. E, assim como a escrita, minha mãe deu à luz a meu irmão. Aos 15 comecei a fazer Terapia Transpessoal e fui aos poucos me abrindo posto que a essa altura era muito retraída e afeita à solidão. Nessa época minha relação com minha mãe se tornou insustentável, atritos, afastamentos, cactos brotando no peito...
Aos 16 anos o ponto culminante dos versos de amor e das angústias internas, o desgosto das relações humanas, o silêncio se fez fúria, revolta, agressividade – e a criança quase muda, silente, que se obrigava a aceitar, engolir calada, disse NÃO a tudo e a todos, sobretudo, os mais queridos, os mais amados...
Dos 16 aos 18 instaurou-se a guerra e os milhares de armistícios, as fronteiras se alargaram sob a égide da espada e a menina acanhada fez força, desenterrou seus mortos, destilou seus venenos... Nesse período minha relação como meu pai se deteriorou e fiquei só dele também.
Aos 18 passei na Faculdade em Salvador e fui morar sozinha. Descobri os prazeres de possuir o próprio espaço e atender às próprias necessidades – iniciou-se a ampliação de minha perspectiva de mundo.
Dos 18 aos 25 conheci o sexo, uma experiência transformadora, abusei do álcool, das festas, experimentei psicoativos, fiz escolhas perigosas e, sobretudo, acertadas, trilhei os caminhos tortuosos da provação auto-infligida, da profunda solidão e amargura e venci – havia sobrevivido a mim mesma – e, entre mortos e feridos lá estava eu de pé.
Aos 20 tive uma depressão que, arrisco dizer, teve fundo emocional e espiritual, a qual foi curada com muito amor e sexo e a presença generosa de um namorado terno, íntimo, amigo e cúmplice – durou uns seis meses e me fez perceber muitas coisas acerca de mim mesma e de minha capacidade de auto-regeneração.
Redescobri o amor por minha mãe por volta dos 23 anos quando me encontrava numa busca por resgate de ancestralidade e aprofundamento do sentido do feminino a partir de mim. Daí pra frente rompi definitivamente com meu pai aos 24, larguei o escritório comum, a casa da família e passei a repensar a vida enquanto pintava camisetas e terminava a Pós-Graduação regada a coquetéis de frutas.
E aos 26, pela graça, descobri que nosso rompimento não havia sido definitivamente. E, então, voltei para casa, para meus pais e meu irmão. E após muita dor e alguns anos distante o furor se fez brando e o fogo que devastava começou a arder e deu lugar ao calor que aproxima e aquece. Hoje, estou me curando, me recuperando dos machucados que me causei após me debater todos esses anos, um surto epiléptico de vida – vida que desconhece, que estranha, que teme e freme alucinada.
Agora, em meu vigésimo sétimo aniversário, me reconciliando comigo mesma e as partes de mim que ainda são sombra, como quem fuça a própria carne aberta a procura da lança, bala, dardo – por saber nesse doloroso intento seu único meio de se curar.
Desde muito pequena sempre houve uma “estranha” simbiose entre mim e os outros animais, as plantas, as pedras, o vento e os seres que não possuem mais um corpo físico para transitar nesse mundo. Tive uma infância, afora esses pequenos detalhes, muito comum. Corria pelo mato, subia em árvores, contemplava o por-do-sol, imitava os pássaros, comia frutinhas desconhecidas, nada que qualquer criança que tenha oportunidade não faça.
Entretanto, meus afetos de criança me faziam uma criança excessivamente sensível aos demais, “bicho do mato”, solitária, afeita às palavras, afoita... Fiz amigos em todos os reinos, cães, palmeiras, pedras e em todos os planos. No astral fiz amigos, reencontrei outros em sonhos de vigília ou não.
Aos 5 anos minha mãe me contou que eu era adotiva e a forma como eu cheguei até ela. Também aos 5 anos tomava uma dose de whisky todos os dias, normalmente após o almoço, para acompanhar meu pai (inicialmente) e depois porque eu e o whisky tínhamos lá nossa profunda amizade. Aos seis vi a “primeira pessoa que não devia estar lá” de minha vida – um homem alto, de terno e sapatos escuros com seus negros cabelos e sua pele branca combinando com a blusa branca que usava. Foi também aos seis que tive meu primeiro sonho premonitório acerca de mim, e como sempre me acontece, não pude evitar o estava por vir...
Então, um amigo da família, que vivia em nossa casa, brincava comigo constantemente viu em mim a mulher que eu seria ao invés da criança – eu tinha lá minha malícia, sabe como é, muito madura para algumas coisas e, ainda assim, nada além de uma criança – e me agarrou e, enfim, deslizou seu corpo no meu comigo suspensa em seus braços, mas me soltou quando eu exigi que me coloca-se no chão e me largasse. Sem maiores conseqüências, acho, mas isso me fez um tanto cautelosa quanto a minha exposição pessoal e sensualidade.
Dos 11 aos 13, os primeiros mal estares causados pelo álcool. Aos 13 anos a escrita se me aflorou e comecei a escrever coisas lindas, desenvolvi o gosto pela palavra (o qual me acompanha até hoje), pela semântica, pela poesia, a subjetividade dos seres. E, assim como a escrita, minha mãe deu à luz a meu irmão. Aos 15 comecei a fazer Terapia Transpessoal e fui aos poucos me abrindo posto que a essa altura era muito retraída e afeita à solidão. Nessa época minha relação com minha mãe se tornou insustentável, atritos, afastamentos, cactos brotando no peito...
Aos 16 anos o ponto culminante dos versos de amor e das angústias internas, o desgosto das relações humanas, o silêncio se fez fúria, revolta, agressividade – e a criança quase muda, silente, que se obrigava a aceitar, engolir calada, disse NÃO a tudo e a todos, sobretudo, os mais queridos, os mais amados...
Dos 16 aos 18 instaurou-se a guerra e os milhares de armistícios, as fronteiras se alargaram sob a égide da espada e a menina acanhada fez força, desenterrou seus mortos, destilou seus venenos... Nesse período minha relação como meu pai se deteriorou e fiquei só dele também.
Aos 18 passei na Faculdade em Salvador e fui morar sozinha. Descobri os prazeres de possuir o próprio espaço e atender às próprias necessidades – iniciou-se a ampliação de minha perspectiva de mundo.
Dos 18 aos 25 conheci o sexo, uma experiência transformadora, abusei do álcool, das festas, experimentei psicoativos, fiz escolhas perigosas e, sobretudo, acertadas, trilhei os caminhos tortuosos da provação auto-infligida, da profunda solidão e amargura e venci – havia sobrevivido a mim mesma – e, entre mortos e feridos lá estava eu de pé.
Aos 20 tive uma depressão que, arrisco dizer, teve fundo emocional e espiritual, a qual foi curada com muito amor e sexo e a presença generosa de um namorado terno, íntimo, amigo e cúmplice – durou uns seis meses e me fez perceber muitas coisas acerca de mim mesma e de minha capacidade de auto-regeneração.
Redescobri o amor por minha mãe por volta dos 23 anos quando me encontrava numa busca por resgate de ancestralidade e aprofundamento do sentido do feminino a partir de mim. Daí pra frente rompi definitivamente com meu pai aos 24, larguei o escritório comum, a casa da família e passei a repensar a vida enquanto pintava camisetas e terminava a Pós-Graduação regada a coquetéis de frutas.
E aos 26, pela graça, descobri que nosso rompimento não havia sido definitivamente. E, então, voltei para casa, para meus pais e meu irmão. E após muita dor e alguns anos distante o furor se fez brando e o fogo que devastava começou a arder e deu lugar ao calor que aproxima e aquece. Hoje, estou me curando, me recuperando dos machucados que me causei após me debater todos esses anos, um surto epiléptico de vida – vida que desconhece, que estranha, que teme e freme alucinada.
Agora, em meu vigésimo sétimo aniversário, me reconciliando comigo mesma e as partes de mim que ainda são sombra, como quem fuça a própria carne aberta a procura da lança, bala, dardo – por saber nesse doloroso intento seu único meio de se curar.
8.12.08
Epifânia
Foi subitamente que Epifânia descobriu dentro de um sonho que não poderia ter filhos. Inicialmente relutou um pouco em confirmar suas "suspeitas", mas como tinha que seguir vivendo (assim sempre pensou) tratou de marcar logo um ginecologista que tivesse algum renome e pudesse, com alguma segurança, confirmar seu diagnóstico onírico. E foi assim que tomada de estranha surpresa (como de costume) confirmou a fidelidade de seus sonhos a si mesma - enfim - não poderia ter filhos. Algo dera-se errado desde a concepção e agora estava, enquanto mulher, obstada de produzir um fruto de seu seio. A notícia, estranhamente esperada, encabulou Epifânia, pois, não conseguia entender porque alguém que tanto sonhara em ter muitos filhos, alguém que dispensava inclusive a figura do marido, não podia ter filhos. Lhe pareceu tal realidade de uma incongruência estupefaciante e não pode conter o assumbro que não lhe permitiu sequer desatar seu choro - esperado, desejado e legítimo.
Epifânia quedou-se muda, olhos arregalados diante de uma imagem no espelho que já não parecia sua. Pensou se havia algo que pudesse retirá-la daquele impasse e, como num passe de mágica ou num sonho, pudesse fazer possível uma cura miraculosa e muito súbita. Parecia louca, estranhamente sobressaltada, por mais que interiormente permanecesse calma, a cada dia sua expressão tornava-se mais absurdamente inquietante.
Procurou um médico, tentando saber qual a razão de subíto alterou-lhe o semblante tão gravimente, afinal poderia estar sendo vítima de algum tipo de contração muscular ou derrame, quem sabe até mesmo um tipo incomum de paralisia. Mas nada, por mais que pesquisasse, por mais que procurasse os mais conceituados especialistas, fisiatras, fisioterapeutas, psicólogos, psiquiatras, neurologistas, ninguém parecia poder sequer supor de onde poderia vir tal reação. E, de uma coisa todos pareciam estar certos, não havia moléstia, havia sintoma mas não havia doença conhecida ou conhecível.
Desenganada, ainda que de forma velada pelos médicos, Epifânia seguiu tentando compreender como sua vida havia mudado tão repentinamente. Sonhava ter muitos filhos e, se tudo corresse bem, teria também muitos netos, sonhara que ficara estéril e ao acordar descobrira que era verdade e; desde então, trazia no semblante uma expressão absurda.
Era como se Epifânia houvesse sofrido uma acidente de trem ou batido de frente com um ônibus, a cada nova manhã seu rosto oferecia uma nova e improvável contratura. Certas vezes parecia louca, outras demente e outras gravemente deformada. Decidida a investigar, ao menos para dar sentido a sua condição vigente, Epifânia resolveu gravar-se enquanto dormia a fim de puder reunir mais dados sobre o mal que a acometia. Então, munida de câmeras pequenas, para não retirar a naturalidade de seu quarto, Epifânia preparou todo um aparato que gravaria o menor suspiro, o menor gesto, a menor inteção de movimento...
E como de costume Epifânia jantou seu leite achocolatado com biscoitinhos de cebola, escovou os dentes, vestiu sua camisola de flanela, se recolheu e logo adormeceu - como um passarinho num galho de árvore ao cair da tarde.
Epifânia quedou-se muda, olhos arregalados diante de uma imagem no espelho que já não parecia sua. Pensou se havia algo que pudesse retirá-la daquele impasse e, como num passe de mágica ou num sonho, pudesse fazer possível uma cura miraculosa e muito súbita. Parecia louca, estranhamente sobressaltada, por mais que interiormente permanecesse calma, a cada dia sua expressão tornava-se mais absurdamente inquietante.
Procurou um médico, tentando saber qual a razão de subíto alterou-lhe o semblante tão gravimente, afinal poderia estar sendo vítima de algum tipo de contração muscular ou derrame, quem sabe até mesmo um tipo incomum de paralisia. Mas nada, por mais que pesquisasse, por mais que procurasse os mais conceituados especialistas, fisiatras, fisioterapeutas, psicólogos, psiquiatras, neurologistas, ninguém parecia poder sequer supor de onde poderia vir tal reação. E, de uma coisa todos pareciam estar certos, não havia moléstia, havia sintoma mas não havia doença conhecida ou conhecível.
Desenganada, ainda que de forma velada pelos médicos, Epifânia seguiu tentando compreender como sua vida havia mudado tão repentinamente. Sonhava ter muitos filhos e, se tudo corresse bem, teria também muitos netos, sonhara que ficara estéril e ao acordar descobrira que era verdade e; desde então, trazia no semblante uma expressão absurda.
Era como se Epifânia houvesse sofrido uma acidente de trem ou batido de frente com um ônibus, a cada nova manhã seu rosto oferecia uma nova e improvável contratura. Certas vezes parecia louca, outras demente e outras gravemente deformada. Decidida a investigar, ao menos para dar sentido a sua condição vigente, Epifânia resolveu gravar-se enquanto dormia a fim de puder reunir mais dados sobre o mal que a acometia. Então, munida de câmeras pequenas, para não retirar a naturalidade de seu quarto, Epifânia preparou todo um aparato que gravaria o menor suspiro, o menor gesto, a menor inteção de movimento...
E como de costume Epifânia jantou seu leite achocolatado com biscoitinhos de cebola, escovou os dentes, vestiu sua camisola de flanela, se recolheu e logo adormeceu - como um passarinho num galho de árvore ao cair da tarde.
Fora uma noite tranqüila, até mesmo mais comum que as outras, acordara cedo e descansada (como quase sempre lhe ocorria) e tratou de procurar ver o que havia sido gravado de si durante a noite.
Epifânia apertou o play e não pode conter as lágrimas que vertiam de seus olhos petrificados diante das imagens...
Durante toda noite Epifânia, de olhos fechados, falava sozinha, sentava-se à cama, permanecia à janela como quem espera alguém chegar ao longe. Por toda noite Epifânia divagava entre travesseiros e lençóis, simulando um bebê em seus braços, conversando com crianças, contando-lhes estórias de cavalos marinhos alados...
Entretanto, o que intrigava Epifânia eram as vozas, as vozezinhas de crianças - de onde vinham? Não pode entender...
Epifânia gravou noites e noites de sono e em todas elas os mesmos gestos, as mesmas vozes e tantas histórias infantis que nunca ouvira eram contadas e recontadas a cada noite... Foi então que com espanto constatou um belo dia, em meio a contratura de seu semblante, um brilho inesperado em seu olhar.
E, como de costume, foi-se Epifânia ver-se nas gravações de sua vida subliminar. Naquela noite Epifânia conversava com as crianças que não poderia mais encontrá-las, que a partir daquele dia elas não se veriam mais e que não poderia contar-lhes as queridas histórias. Houve grande comoção, Epifânia e as crianças choraram por três horas, sem parar, abraçadas aos pés da cama junto à janela. Ao final daquele tempo Epifânia dormiu profundamente no chão e o seu rosto se descontraiu leve, sem nenhum vinco - parecia um boneco de cera ao chão.
Os dias que se seguiram foram ainda mais intrigantes, dia após dia Epifânia descontraia uma porção de seu rosto, outrora desfigurado, até poder reconhecer-se em seu rosto.
Epifânia não procurou os médicos para mostrar a milagrosa cura que ocorrera, nem questionou-se sobre as razões do fato. Foi até a papelaria, comprou pincéis, aquarelas, lápis de cor, papéis coloridos, cola e tesoura. Estava decidida, se não poderia tê-los iria criar com as próprias mãos os seus filhos e começou a modelar com lápis, aquarelas e papéis coloridos seus filhos multicores; os quais cortaria um a um e ao estarem prontos levaria para passear à tardinha na praia. Epifânia sabia que as vozes que ouvira vinham de seu coração lhe dizendo que todo gestar era ser capaz de dar luz a vida - e agora estava empenhada em fazer os seus próprios filhos.as, contando-lhes estersando com crian, sentava-se s...
durante a noitee sempre lhe ocorria)
24.11.08
Humpty Dumpty
Após ter tomado importantes decisões aos cinco anos de idade, ter como partícipe de minha criação um cão e entre meus maiores e mais chegados amigos uma palmeira... O que me levou a percorrer uma bela estrada de amores e partidas.
Me senti vivendo tudo que não amo por ter desistido de lutar pelo que me toca e isso me tornou infeliz e me colocou ao lado das pessoas que não amo, me afastando de meus afetos genuínos.
Dei poder para o meu Barba Azul roubar minha vitalidade, meus sonhos e minha alegria.
E fiz isso tudo tentando dar uma chance ao entendimento impossível, impossível porque ninguém pode entender por outra pessoa.
Creio que nem mais havia querido, nessa tentativa final, ser amada ou aceita, mas respeitada. Só que agora eu entendo que ninguém se faz respeitar cedendo, fazendo o jogo do inimigo. É preciso rosnar, partir pro ataque, saber quando recuar, quando esperar, estar sempre pronto.
Agora quero ir para sempre, me perder de vista, não ser encontrada por ninguém.
Serei só eu e minhas escolhas guiadas pela intuição, dignidade, respeito a mim mesma, meus afetos, meus dons.
Vou partir para a estrada que meus pés vão construir, despertar e curar, aprender e crescer como ser, estar em paz, ser em harmonia.
Eu me entrego, não vou mais me debater, vou deixar essa realidade imprestável para traz e seguir em frente. Só existem o presente e o futuro em minhas mãos.
Não quero mais dor, medo, culpas repassadas, herdadas...
Agora quero viver livre, sem medo, responsável apenas por minha vida, minha evolução e pela Terra.
Como farei isso, pouco me importa porque não farei mais nenhuma outra coisa. A Terra é minha casa, não estarei desabrigada.
Que desçam sobre mim as bençãos do Grande Espírito.
Aqui estou...
Me senti vivendo tudo que não amo por ter desistido de lutar pelo que me toca e isso me tornou infeliz e me colocou ao lado das pessoas que não amo, me afastando de meus afetos genuínos.
Dei poder para o meu Barba Azul roubar minha vitalidade, meus sonhos e minha alegria.
E fiz isso tudo tentando dar uma chance ao entendimento impossível, impossível porque ninguém pode entender por outra pessoa.
Creio que nem mais havia querido, nessa tentativa final, ser amada ou aceita, mas respeitada. Só que agora eu entendo que ninguém se faz respeitar cedendo, fazendo o jogo do inimigo. É preciso rosnar, partir pro ataque, saber quando recuar, quando esperar, estar sempre pronto.
Agora quero ir para sempre, me perder de vista, não ser encontrada por ninguém.
Serei só eu e minhas escolhas guiadas pela intuição, dignidade, respeito a mim mesma, meus afetos, meus dons.
Vou partir para a estrada que meus pés vão construir, despertar e curar, aprender e crescer como ser, estar em paz, ser em harmonia.
Eu me entrego, não vou mais me debater, vou deixar essa realidade imprestável para traz e seguir em frente. Só existem o presente e o futuro em minhas mãos.
Não quero mais dor, medo, culpas repassadas, herdadas...
Agora quero viver livre, sem medo, responsável apenas por minha vida, minha evolução e pela Terra.
Como farei isso, pouco me importa porque não farei mais nenhuma outra coisa. A Terra é minha casa, não estarei desabrigada.
Que desçam sobre mim as bençãos do Grande Espírito.
Aqui estou...
18.11.08
Elegbara

"Exu é o mensageiro é o rei dos caminhos
Das porteiras, das estradas, das encruzilhadas
Laroiê!
Legbara yê
Protetor, luz do saber
Colofé meu Legbara, salve o tempo-do-aprender!
Vencedor de todas as batalhas, é meu Exu, é meu Legbara - Laroiê!
O bem e o mal, o sim e o não, a luz e a escuridão.
Me firma no equilíbrio do tempo,
Ilumina o meu pensamento,
Elege o meu movimento,
Protege o meu sentimento - Laroiê!
Exu é orixa, Exu é orixá.
Se tem brilho nos teus olhos
É o Exu que está lá.
Exu é luz, Exu é luz!"
Paula Pretta
Das porteiras, das estradas, das encruzilhadas
Laroiê!
Legbara yê
Protetor, luz do saber
Colofé meu Legbara, salve o tempo-do-aprender!
Vencedor de todas as batalhas, é meu Exu, é meu Legbara - Laroiê!
O bem e o mal, o sim e o não, a luz e a escuridão.
Me firma no equilíbrio do tempo,
Ilumina o meu pensamento,
Elege o meu movimento,
Protege o meu sentimento - Laroiê!
Exu é orixa, Exu é orixá.
Se tem brilho nos teus olhos
É o Exu que está lá.
Exu é luz, Exu é luz!"
Paula Pretta
A vítimia - uma consideração
Hoje sei que o medo é pior que o ódio, a vingança ou o rancor. Pois o medo é estéril, tolhe até mesmo quem o possui e causa muito mais dor. A guerra do medo é sem fim, sem propósito e sem razão. Até o ódio é mais justo que o sangue derramado pelo medo. O vingador é focado já o medroso é inseguro e agressivo no pior grau, pois, é hostil imparcialmente. O rancor tem parâmetro, tem mágua mais genuína e menos letal. O medo gera e é gerado pela vítima, o eterno ofendido, o insone e inseguro que jamais desfruta de poder ou real segurança. O medrosos é assustadiço e toda sua ação é ataque, todo gesto é violência. Paranóico e obsessivo, sempre temente, sempre desconfiado, sempre sentindo-se ameaçado. A vítima é covarde e irreflexiva e todo mundo lhe é hostil porque ela mesma é hostil ao mundo. A vítima é injusta, tendenciosa, fraca, sempre exigindo o máximo dos outros - logo ela que é incapaz de se despreender.
15.11.08
Como pescar sonhos

Pega-se a uma vara de tamanho condizente com o manejador,
prende-se a linha e testa-se a bobina (fluidez e bom estado).
Certifica-se se há linha suficiente para o sonho almejado,
prende-se no anzol a isca específica para aquele sonho.
Lança-se ao mar ou ao ar e mantém-se atento à fisgada do sonho...
Mas cuidado...
Há sonhos de delicadeza insuspeitável -
e é preciso ser então todo sonho.
prende-se a linha e testa-se a bobina (fluidez e bom estado).
Certifica-se se há linha suficiente para o sonho almejado,
prende-se no anzol a isca específica para aquele sonho.
Lança-se ao mar ou ao ar e mantém-se atento à fisgada do sonho...
Mas cuidado...
Há sonhos de delicadeza insuspeitável -
e é preciso ser então todo sonho.
14.11.08
Magnólia
- Mãe, dentro do olho d'água tem medo?
Jogo de espelhos, prisma à janela...
- Seriam os vincos das conchas
resquícios da ancentralidade dos moluscos?
- Quem o sabe?...
Se no presente somos futuro e passado uma da outra,
inusitada realidade...
-Qual é a real idade das almas,
Se elas se encontram para além do tempo-espaço?
- Mãe, quando eu olho no teu olho sinto uma solidão tão doída...
- Por que você esqueceu de derramar tanto choro?
Rufar de asas, crepitar de madeira queimando,
chuva caindo baixinho...
Hum...
- Vem almoçar minha filha,
tem aquele prato que tanto gosta.
- Senta aqui em minha frente - me fale de sua vida...
- Tudo bem, Mãe...,
tudo bem inquietante, cheio de perguntas sem respotas....
(Penso em silêncio)
O que mais poderia dizer?!
Tenho farpas, sinto coisas, penso tanto que chega doer.
- O almoço tava ótimo (com gosto de lar)... e ótimo sal.
- Mãe, não pensa em chorar no presente? Ainda é tempo.
Deixar brotar da nascente, chover em torrente...
- Não sei, pingar não é coisa de gente.
Uma tempestade agora poderia por a todos em risco.
- Mas, Mãe!?!
- Ah, vem cá filha, sei o que você tá querendo.
O olhos e abraço quente de sua mãe - pode entrar...
Mesmo em cacos, meu seio tem amor.
- Desculpa, Mãe, não pretendia...
- Tudo bem, bem complicado...
eu também te amo.
Jogo de espelhos, prisma à janela...
- Seriam os vincos das conchas
resquícios da ancentralidade dos moluscos?
- Quem o sabe?...
Se no presente somos futuro e passado uma da outra,
inusitada realidade...
-Qual é a real idade das almas,
Se elas se encontram para além do tempo-espaço?
- Mãe, quando eu olho no teu olho sinto uma solidão tão doída...
- Por que você esqueceu de derramar tanto choro?
Rufar de asas, crepitar de madeira queimando,
chuva caindo baixinho...
Hum...
- Vem almoçar minha filha,
tem aquele prato que tanto gosta.
- Senta aqui em minha frente - me fale de sua vida...
- Tudo bem, Mãe...,
tudo bem inquietante, cheio de perguntas sem respotas....
(Penso em silêncio)
O que mais poderia dizer?!
Tenho farpas, sinto coisas, penso tanto que chega doer.
- O almoço tava ótimo (com gosto de lar)... e ótimo sal.
- Mãe, não pensa em chorar no presente? Ainda é tempo.
Deixar brotar da nascente, chover em torrente...
- Não sei, pingar não é coisa de gente.
Uma tempestade agora poderia por a todos em risco.
- Mas, Mãe!?!
- Ah, vem cá filha, sei o que você tá querendo.
O olhos e abraço quente de sua mãe - pode entrar...
Mesmo em cacos, meu seio tem amor.
- Desculpa, Mãe, não pretendia...
- Tudo bem, bem complicado...
eu também te amo.
29.7.08
Sun in my mouth - Björk
(From the poem "Wade" by E.E. Cummings)
I will wade out
Till my thighs are steeped
In burning flowers
I will take the sun in my mouth
And leap into the ripe air
Alive with closed eyes
To dash against darkness
In the sleeping curves of my body
Shall enter fingers
Of smooth mastery
With chasteness of sea-girls
Will I complete the mystery
Of my flesh
Will I complete the mystery
Of my flesh
My flesh
Eu vadiarei por ai até que minhas coxas
Estejam impregnadas de flores ardentes
Eu pegarei o sol pela boca
E saltarei viva no maduro ar
Com os olhos fechados
Para colidir contra a escuridão
Nas curvas dormentes de meu corpo
Eu enfiarei os dedos com macia maestria
Com a humildade das gaivotas
Desvendarei o mistério
de minha carne
I will wade out
Till my thighs are steeped
In burning flowers
I will take the sun in my mouth
And leap into the ripe air
Alive with closed eyes
To dash against darkness
In the sleeping curves of my body
Shall enter fingers
Of smooth mastery
With chasteness of sea-girls
Will I complete the mystery
Of my flesh
Will I complete the mystery
Of my flesh
My flesh
Eu vadiarei por ai até que minhas coxas
Estejam impregnadas de flores ardentes
Eu pegarei o sol pela boca
E saltarei viva no maduro ar
Com os olhos fechados
Para colidir contra a escuridão
Nas curvas dormentes de meu corpo
Eu enfiarei os dedos com macia maestria
Com a humildade das gaivotas
Desvendarei o mistério
de minha carne
Salúba Nanã
Esta noite quando eu vi NanãVi a minha deusa ao luar
Toda noite eu olhei Nanã
A coisa mais linda de se olhar
Que felicidade achar enfim
Essa deusa vinda só pra mim, Nanã
E agora eu só sei dizer toda minha vida é Nanã
É Nanã, é Nanã
Esta noite dos delírios meus
Vi nascer um outro amanhã
Veio o dia com um novo sol
Sol da luz que vem de Nanã
Adorar Nanã é ser feliz
Tenho a paz, o amor e tudo que eu quis
E agora eu só sei dizer toda minha vida é Nanã
É Nanã, é Nanã
É Nanã, é Nanã
É Nanã, é Nanã
(Moacir Santos/Mario Telles)
24.7.08
Ser amado

"Como pode ser gostar de alguém
E esse tal alguém não ser seu...
Fico desejando, nós, gastando o mar
Por do sol postal, mas ninguém.
[...]
Minha linda flor, meu jasmim será...
Meus melhores beijos serão seus...
Sinto que você é ligado a mim
Sempre que estou indo volto atrás.
Estou entregue a ponto de estar sempre só
Esperando um sim ou nunca mais.
É tanta graça ...
Lá fora passa o tempo sem você.
Mas pode sim ser sim...
Amado e tudo acontecer....
Sinto absoluto dom de existir...
Com a solidão nem penar.
Nessa doação - milagres do Amor....
Sinto uma extensão divina.
É tanta graça ...
Lá fora passa o tempo sem você.
Mas pode sim ser sim...
Amado e tudo acontecer....
Quero dançar como você,
Dançar com você..."
[Vanessa da Mata - Amado - Album Sim]
Filha d'Oxum, o Amor ama muito você através de mim. E só posso ser imensamente grata pelo Amor, por sentir em mim tal coisa. Afinal, só o regaço do ser amado é a paz de quem é amado.
E como esse Amor nos atravessa e une, vibramos em paz. Só me resta agradecer e abraçar...
Fazendo de você meu templo aonde estou sempre com o coração, a todo momento de joelhos, entregue. Contigo sou sem corpo, sem sexo, sem nome. Entregue a minha alma em êxtase - jubilosa. Assim me toca ao sentir o toque de seu ser mais profundo, sua simples presença irradia beleza. Fruto, pétala, asa. Chuva e sol em sua homenagem...
Ora yeyê ô!
23.4.08
Reencontro
Aliso sua superfíce áspera,
de um cinza confuso salpicado de negro.
Suas linhas grossas, muro antigo, bruta realidade.
Distância sem fundo - medo.
Discrepância...
Por que não permite a meus pés
O seio cálido da terra fôfa e sua umidade?
O que é esse sem-nome imenso
de que me afasta?
Meus dedos perscrutam a fenda para meus pés sedentos,
ávidos do afago da terra.
Meu nariz fareja o arôma ancestral,
a ostra, o mangue e seu negrume profundo - perfumoso.
Deito sobre sua superfície de lápide,
tateio um coração que pulse seu afeto recôndito - inconfesso.
E encontro em seu regaço de aspereza,
súbito alento.
Que num suspiro me responde:
-Mãe...
Antes de fazer-se em pedaços e ser levado pelo vento.
E tocando a areia com a palma dos pés,
Sinto o mar vir banhar meus dedos.
de um cinza confuso salpicado de negro.
Suas linhas grossas, muro antigo, bruta realidade.
Distância sem fundo - medo.
Discrepância...
Por que não permite a meus pés
O seio cálido da terra fôfa e sua umidade?
O que é esse sem-nome imenso
de que me afasta?
Meus dedos perscrutam a fenda para meus pés sedentos,
ávidos do afago da terra.
Meu nariz fareja o arôma ancestral,
a ostra, o mangue e seu negrume profundo - perfumoso.
Deito sobre sua superfície de lápide,
tateio um coração que pulse seu afeto recôndito - inconfesso.
E encontro em seu regaço de aspereza,
súbito alento.
Que num suspiro me responde:
-Mãe...
Antes de fazer-se em pedaços e ser levado pelo vento.
E tocando a areia com a palma dos pés,
Sinto o mar vir banhar meus dedos.
18.4.08
Vanessa
Dentro do olho d'água tem medo?
Nunca soube por quê me encantam as borboletas
Tão leves - num arregalo de olhar a vida fremindo
Delicadas, quase impalpáveis
Com aquela eterna impressão de já serem sempre outra coisa
Ao menor encontro
É tão doído amar uma borboleta quanto inevitável...
Basta que ela pouse em sua superfície
E aí você pinga - aqüoso...
Seus olhinhos escuros, facetados
A visualizar numa miríade de multiplicidade
Sua ternura infinita...
E como todo infinito, morrem tão logo as percebemos
Talvez porque saibam que tudo flui
E nada deve permanecer estático
Sobretudo se há amor.
Sabe, o maior amor que tive era uma borboleta -
Ínfimo e infinito.
Nunca soube por quê me encantam as borboletas
Tão leves - num arregalo de olhar a vida fremindo
Delicadas, quase impalpáveis
Com aquela eterna impressão de já serem sempre outra coisa
Ao menor encontro
É tão doído amar uma borboleta quanto inevitável...
Basta que ela pouse em sua superfície
E aí você pinga - aqüoso...
Seus olhinhos escuros, facetados
A visualizar numa miríade de multiplicidade
Sua ternura infinita...
E como todo infinito, morrem tão logo as percebemos
Talvez porque saibam que tudo flui
E nada deve permanecer estático
Sobretudo se há amor.
Sabe, o maior amor que tive era uma borboleta -
Ínfimo e infinito.
18.3.08
Beija-flores
A escrita serve aos hermitões, aos profetas, os que têm na vida seu maior enigma. Um espírito dilacerado canta, mas no desalento reside o traço - a perplexidade de uma solidão impossível sempre a espreita... Da falta de ar, o olhar ressequido, inlacrimoso, nasce o verso, a inquietante sentença - oração. O espicaçar do coração e suas lâminas-máguas, carpindo escuridões. Do gesto solto sempre à espera, da falta de brisa que abrande ardências tamanhas só os versos, reverso de canção que canta junto ao peito. Abraço guardado nos redondilhos da pele, gota de sangue, âmago aberto contra o papel silente... Aos mais que amantes - aos que padecem do amor mais atroz -, por não saber fazer distinções e não poder ser menos que inteiros. E exaurem o amor até não restar nada além de lembranças inefáveis, ardentes... Um eterno passar - lei do tempo - uma amar e partir - lei dos colibris do amor...
13.9.07
Fêmea
Que dizer de ti já tão devassada por tuas angulosidades, tuas grutas úmidas, tuas reentrâncias sempre pavorosas.
Tua metamórfica anatomia, tua permissividade líquida...
Facilmente se diluindo submergida nos líquidos que a despeito de seu volume sempre te absorvem. Tu, mestra da comunhão.
Teu vente macio a incitar deleites, esconderijos, alentos – pouso perfeito para o espírito latente.
Tu que és infestável, imcompreensível em teu amor as coisas indefinidas, desconhecidas. Inaceitável por tua fé absoluta e irracional tanto em si mesma como nos demais seres.
Senão, como amarias o verme que se alimenta de tuas entranhas e dar-lhe-ia a herança de tudo que és?
Como podes? De onde vens com teus mistérios, tua medicina fantástica, tua alegria?
Como podes chorar de alegria com tamanho alarde?
Contraditória em tua própria constituição, posto que quando as pernas caminham retas teu quadril em concha se curva para logo se estreitar novamente na cintura e terminas por desabrochar seios, tão perfeitamente arredondados, pendentes e curiosamente estáveis - de uma textura sem par.
Inconfessável em tua manifestação mais corriqueira, tu e teus segredos obscuros.
E como fazes tão delicadamente tantas incontáveis coisas? Que domínio tens de si mesma? Como podes oferecer tanto amor com tua simples presença?
Em tua presença os ares são amenos, as vozes se esforçam para não abalar teus ouvidos sensíveis sempre atentos aos menores balbucios das pequenas criaturas esquecidas.
A ti tudo aparenta leve, frugal, sem receio... Tu que caminhas de braços dados com a vida e sua crueza, amiga dos tempos imemoriais de onde foste tragada para a vida e através do qual trouxeste tua sabedoria a muito desconhecida.
Caminhante das águas sobre e sob a terra, águas que te percorrem e em ti lágrimas se fazem sangue e leite que vertes.
A sempre solicitada, mesmo no ódio, testemunha ocular dos primórdios da vida, potencia de manifestação do mundo.
Teus filhos sedentos de teu leite, famintos de tua carne, que caminham a boa estrada vermelha construída por ti com teu próprio sangue.
A ti, desde os ossos até os mais etérios eflúvios que de ti emanas...
A nação das fêmeas te saúda, unidas pelo fio de sangue com que tecestes a bases da estrada vermelha de todas nós.
Tua metamórfica anatomia, tua permissividade líquida...
Facilmente se diluindo submergida nos líquidos que a despeito de seu volume sempre te absorvem. Tu, mestra da comunhão.
Teu vente macio a incitar deleites, esconderijos, alentos – pouso perfeito para o espírito latente.
Tu que és infestável, imcompreensível em teu amor as coisas indefinidas, desconhecidas. Inaceitável por tua fé absoluta e irracional tanto em si mesma como nos demais seres.
Senão, como amarias o verme que se alimenta de tuas entranhas e dar-lhe-ia a herança de tudo que és?
Como podes? De onde vens com teus mistérios, tua medicina fantástica, tua alegria?
Como podes chorar de alegria com tamanho alarde?
Contraditória em tua própria constituição, posto que quando as pernas caminham retas teu quadril em concha se curva para logo se estreitar novamente na cintura e terminas por desabrochar seios, tão perfeitamente arredondados, pendentes e curiosamente estáveis - de uma textura sem par.
Inconfessável em tua manifestação mais corriqueira, tu e teus segredos obscuros.
E como fazes tão delicadamente tantas incontáveis coisas? Que domínio tens de si mesma? Como podes oferecer tanto amor com tua simples presença?
Em tua presença os ares são amenos, as vozes se esforçam para não abalar teus ouvidos sensíveis sempre atentos aos menores balbucios das pequenas criaturas esquecidas.
A ti tudo aparenta leve, frugal, sem receio... Tu que caminhas de braços dados com a vida e sua crueza, amiga dos tempos imemoriais de onde foste tragada para a vida e através do qual trouxeste tua sabedoria a muito desconhecida.
Caminhante das águas sobre e sob a terra, águas que te percorrem e em ti lágrimas se fazem sangue e leite que vertes.
A sempre solicitada, mesmo no ódio, testemunha ocular dos primórdios da vida, potencia de manifestação do mundo.
Teus filhos sedentos de teu leite, famintos de tua carne, que caminham a boa estrada vermelha construída por ti com teu próprio sangue.
A ti, desde os ossos até os mais etérios eflúvios que de ti emanas...
A nação das fêmeas te saúda, unidas pelo fio de sangue com que tecestes a bases da estrada vermelha de todas nós.
9.7.07
Perdulário
Quantos objetos são necessários para ofuscar uma pessoa?
E quantos para forjar um ser humano?
E se as pedras rolarem de pura leveza inconfessa?
E se sorrir for só uma delicada maneira de dizer:
- Por favor, não me machuque?
Será o adeus um olá às avessas, uma contratura de amor?
Dói sentir assim?
Fincar as garras no peito à espera de uma sensação que resista?
O quanto de vida se esvai num só sonho esquecido?
E se pudéssemos ser asa e fremir sem descanso, beatitude e inconsciência?
O que sería de nós se não houvesse nada além de lábios que se tocassem?
De que vazio emerge a ofensa que se balbucia?
E quantos para forjar um ser humano?
E se as pedras rolarem de pura leveza inconfessa?
E se sorrir for só uma delicada maneira de dizer:
- Por favor, não me machuque?
Será o adeus um olá às avessas, uma contratura de amor?
Dói sentir assim?
Fincar as garras no peito à espera de uma sensação que resista?
O quanto de vida se esvai num só sonho esquecido?
E se pudéssemos ser asa e fremir sem descanso, beatitude e inconsciência?
O que sería de nós se não houvesse nada além de lábios que se tocassem?
De que vazio emerge a ofensa que se balbucia?
5.7.07
Se tudo pode acontecer...
"Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre sem saber que pra sempre sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
(...) Agora tanto faz...
Estamos indo de volta pra casa..."
"Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer
Qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando
De mão dada de qualquer maneira..."
Composição: Arnado Antunes / Paulo Tatit / Alice Ruiz / João Bandeira
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim, tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre sem saber que pra sempre sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
(...) Agora tanto faz...
Estamos indo de volta pra casa..."
"Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer
Qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando
De mão dada de qualquer maneira..."
Composição: Arnado Antunes / Paulo Tatit / Alice Ruiz / João Bandeira